Sobre rodas e insetos
Ontem, na volta pra casa, no ônibus metropolitano, sentei na parte dos idosos. O veículo estava muito cheio.
Ao meu lado, uma dessas velhinhas simpáticas de cabelo grisalho e unhas vermelhas. Logo me justifiquei:
- “Lá pra trás está muito cheio. Se alguém entrar, eu levanto”.
Ficamos lá, eu e a velhinha. Depois, um rapaz que ficou em pé ao lado.
Eu estava encostada na janela e , no vidro, percebi um inseto que se movia com rapidez. “Tomara que não seja uma barata!”, pensei.
Em cinco minutos, o bicho foi se aproximando, até que chegou ao meu lado. Era uma.
Olhei para o lado em busca de consolo da velhinha. Ela durmia.
Olhei para o rapaz e falei “é um filhote de barata, né?”
Ele, com ar de sabedoria: “É sim.”
Pânico!
Eu disse: “Tenho pavor de baratas”.
A velha acordou e olhou pra mim com cara de “por favor, menina, pare de ser besta”
O rapaz, em um ato heróico, decidiu que me salvaria da situação e pegou sua carteira. Em uma tentativa frustrada de matá-la, foi cercando, cercando, cercando com a carteira.
Eis, que num movimento errado, o bicho cai no meu colo.
Desespero!
Eu levantei e falava: “Tenho pânico de barata. tenho pânico de barata. Eu não vou gritar. eu não vou fazer escândalo. Estamos num ônibus lotado. Heloisa, não berre. Heloisa, auto-controle é tudo na vida”.
Eu não enxergava pra onde a maldita tinha ido. O vestido era preto e o ônibus, como a maioria deles, não tinha luz na parte dianteira.
A velhinha em um sábio conselho disparou: “Sente e coloque os pés pra cima”. Eu decidi que aquela seria a melhor opção.
Frustração!
A viagem foi tensa e ambos os meus companheiros tentaram me distrair falando sobre como o transporte público era precário e sobre como o bilhete único tinha piorado a vida dos passageiros. Eu tentei participar da conversa e fiz observações como “vocês sabiam que no Chile a frota de ônibus é formada por veículos que São Paulo descartou por más condições para uso?”. “É, no Chile só tem ônibus caindo aos pedaços e São Paulo é considerada a cidade com melhor infra-estrutura de transporte do mundo”. Eles faziam cara de dúvida.
Não esqueci da amiga escrota. Durante o trajeto, concentrada, esperei a hora que ela subiria em minhas pernas e que eu não controlaria o pânico.
O moço: “cada um com seu pânico, né? Eu tenho de agulhas”.
E eu lá queria saber do que ele tinha medo?
Escrito por Que tenho pra contar às 09h00
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