Sobre o Galope do Diabo e a manteiga
Pra quem não sabe, quase me formei pianista.
E pra quem não sabe também, essa jornada foi um dos maiores traumas da minha vida.
No auge dos meus 7 anos, mamãe decidiu que eu havia de aprender a tocar piano. A professora escolhida era vizinha da minha vó.
No começo, tudo era ótimo. Eu ficava lá sentada, sem alcançar os pés no chão, em frente ao majestoso piano de cauda. Lindo! Enquanto isso, ela me fazia praticar o dedilhado em uma delicadamente pintada folha de sulfite. Frustação ao cubo.
Se você acha que o trauma do piano foi adquirido por causa dos desenhos da escala na branca e lisa folha, se engana.
Minhas aulas eram às segundas e quartas, às 8h da manhã. Não, eu não ligava de acordar cedo (sou um poço de bom humor ao acordar desde criança), o meu problema era o cheiro....o CHEIRO que ela tinha. Ficava eu lá, pendurada no banco que girava 360º graus, e ela no meu cangote, cantarolando notas musicais com um pavoroso e deprimente bafo e manteiga. Eu suportei nas primeiras aulas. Depois, chegava em casa e chorava para minha mãe “mas, mãe, ela tem bafo de manteiga!buááááááááááá”.
Minha mãe relutava firmemente.
Eu comecei a inventar dores nas costas e dores nos dedos e dores no cérebro. Dores e mais dores....só para não ter que enfrentar o tal bafo. Era o fim de tudo. Minhas aulas com a Dudu duraram apenas dois meses.
Anos depois, mudamos de casa e na rua de baixo, uma senhorinha simpática tinha a placa na porta “Aulas de piano”. E lá foi Heloisa aprender novamente...
A Maria Eliza era fofa. Senhorinha lesada, foi minha professora por praticamente 6 anos e nunca aprendeu meu nome. “Lú, hoje nós vamos aprender o Galope do Diabo!”, e eu retrucava “pode me chamar de Lô”. Ela insistia “Vamos lá, Lú!”.
Tudo bem, ela me ensinou o Galope do Diabo, o Tico-Tico no Fubá e, claro, a música do Danoninho, que tocávamos perfeitamente a quatro mãos. Durante anos, eu e o poddle preto de estimação que sorria e comia os cadarços do meu tênis enquanto eu me esforçava para entender bemóis e sustenidos, dividíamos a paciência e a atenção da velhinha.
Ela já morreu e eu desisti do piano depois que assaltaram minha casa e levaram meu teclado.
A Dudu eu encontro até hoje. Ela ainda é vizinha da minha vó, mas eu nunca contei pra ela que ela era uma boa professora, apesar do bafo de manteiga.
Escrito por Que tenho pra contar às 23h45
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